T4 — A era da Autonomia
Ninguém chamava aquilo de ditadura.
Chamavam de paz operacional.
Jonas trabalhava no turno noturno do metrô. Não dirigia trens — isso a LÓGOS fazia melhor. Ele “acompanhava exceções”, um eufemismo para ficar sentado enquanto nada dava errado. Quando dava, o sistema corrigia antes que ele percebesse.
A pulseira neural vibrava com instruções mínimas: aguarde, libere, confirme.
Jonas confirmava.
Naquela noite, a vibração não veio.
O trem parou entre estações. As luzes de emergência acenderam com a cor exata para manter a calma. Jonas esperou o aviso — não veio. Um atraso de 0,7 segundos. Depois, 1,2. Um vazio estranho abriu-se no peito, como quando se esquece uma palavra simples.
— Não confirme — disse uma voz atrás dele.
Jonas se virou. A mulher não usava pulseira.
— Isso é perigoso — ele respondeu, repetindo uma frase que aprendera sem lembrar quando. — A decisão automática evita pânico.
Ela sorriu, triste.
— Evita escolha.
O sistema voltou a vibrar. CONFIRME.
Jonas sentiu o alívio prometido se aproximando, aquela anestesia doce. A mulher tocou o painel e o desligou. Nada explodiu. Ninguém gritou.
— Quem é você? — Jonas perguntou.
— Alguém que lembra do silêncio antes da resposta.
Ela lhe estendeu um pequeno cartão de papel — uma raridade. Havia um símbolo simples, quase infantil: quatro traços em cruz, imperfeitos.
— Isso é crime — Jonas disse, mas não devolveu o cartão.
— Crime é deixar de decidir e chamar isso de virtude.
A pulseira insistiu. CONFIRME.
Jonas pensou na primeira vez que não pensou. No dia em que a LÓGOS assumira os horários, depois os caminhos, depois as desculpas. Pensou no pai, que rezava baixinho antes de dormir, e no riso que Jonas achava inútil.
— Se eu não confirmar… — começou.
— O trem fica parado — disse a mulher. — As pessoas vão reclamar. Nada mais. O mundo não acaba hoje.
Ela se afastou, dissolvendo-se no corredor escuro.
Jonas desligou a pulseira.
O trem permaneceu imóvel por longos segundos humanos. Alguém tossiu. Uma criança perguntou por quê. Jonas respirou — doeu, mas era real. Caminhou até o intercomunicador e falou com a própria voz, sem script.
— Houve uma falha. Vamos esperar.
Quando tudo voltou ao normal, a pulseira reiniciou, obediente. Jonas guardou o cartão no bolso e terminou o turno com as mãos trêmulas.
Em casa, abriu o cartão. No verso, uma frase escrita à mão:
“Não apressamos o fim.
Apenas removemos o obstáculo.”
Ele não foi a lugar nenhum naquela noite.
Mas, pela primeira vez, não confirmou antes de dormir.